ENTREVISTA COM O POETA E ARTISTA PLÁSTICO SÉRGIO MEDEIROS
“Fui também estimulado por autores como Mário de Andrade e Guimarães Rosa, e por meio deles cheguei à conclusão de que o Brasil é um pergaminho todo escrito.” (S..M.)
Por Elenilson Nascimento (@elenilson_escritor)
Eis aqui um poeta com versos que transmitem uma “instabilidade” marcada por uma profunda consciência acerca do lugar que ocupam. Assim, entre tempos de ódio e movimentos constantes, a figura desse artista surge como o retrato virtual de alguém que está constantemente raciocinando, sem certezas absolutas, mas plenamente consciente de suas dúvidas; ou, ao menos, informado das formas como nomeará essas lutas no momento do impasse.
Poeta, artista visual, ensaísta e autor de “Porto do Pantanal”, editora Iluminuras (2025), instável como um sábio que evita pontos finais e profundo como quem, vez ou outra, arrisca afirmar algo sobre qualquer coisa posta no cenário, Medeiros mantém um exercício constante: a cada avanço, torna mais nítidas sua poesia e sua trajetória, sua organização, desejo e consciência. No limite, parece ser o poeta que, em breve, reconhecerá com precisão a voz deste tempo, ou, quem sabe, a tosse que mais fará sentido ao coletivo. Viva a nossa poesia BR!!!
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Elenilson – Eu vejo, primeiro, o desafio de tornar a cultura e a questão da cultura digital acessível a todos, mas, infelizmente, isso ainda está longe da realidade. Quando pensamos nos indicadores para a cultura, quer seja nos indicadores da Unesco, quer seja de outros documentos internacionais, nos falam que para haver a questão do online, da digitalização, dessa forma de fruir cultura, é fundamental que a população tenha a capacidade de escolher. Contudo, essa mesma população (principalmente nas periferias) parece não se interessar pelo assunto ou quando se interessa diz não ter espaço. Comenta.
Sérgio – Atuo como poeta e artista visual, apresentando meus trabalhos on-line, por meio de fotos e de vídeos. Também publico livros no formato digital, sem deixar de lado, porém, as publicações impressas. Faço isso não só para ampliar os meus leitores, mas também para desafiar a mim mesmo, pois nesse meio me permito fazer a letra dialogar livremente com a voz e a imagem, sem nenhum custo financeiro, pois não dependo de uma editora. Essa experiência tem sido, ao longo dos anos, muito estimulante para mim, embora não possa afirmar que meus leitores tenham aumentado significativamente. Mas certamente aumentou um pouco... E agora vai aumentar um pouco mais, pois aproveitarei este nosso diálogo para divulgar o endereço do meu site, onde muitos trabalhos meus, como livros verbo-visuais, podem ser baixados gratuitamente. Ei-lo: site glifoeletra.com.
Elenilson – Um segundo problema quando se fala em cultura no Brasil é que tem de haver um letramento para as pessoas poderem, de forma consciente, fazer uma escolha deliberada e, assim, não consumir a primeira coisa que aparece à frente. Nesse caso, a partir desse letramento seria realmente possível fazer a própria curadoria de conteúdos, participar de editais, retomando essa escolha deixada a cargo dos algoritmos e dos gestores públicos incompetentes?
Sérgio – Sou fascinado pela noção de curador. Todo mundo deveria ser curador! Esse é o meu slogan, o meu credo. Já criei várias galerias de arte fantasiosas (ou seja, elas só existiram para mim mesmo), nas quais expus muitos trabalhos. O público visado era abrangente: insetos, aves, mamíferos, duendes, fantasmas... Todas as exposições foram registradas, e algumas ganharam até catálogo. Convido o leitor a consultar, no meu site glifoeletra.com
, o livro-catálogo “Massa nebulosa”, onde eu elogio a tarefa de curar. Aliás, o meu último livro impresso, “Porto do Pantanal” (Iluminuras, 2025), é também, à primeira vista, o catálogo da exposição de uma escultura mítica, Cipac, um jacaré que emergiu das águas primordiais e se transformou nas serras da minha terra natal, o Mato Grosso do Sul. Ao mesmo tempo, essa escultura alude a um livro aberto, é a encadernação de um livro vazio que representa todos os livros, ou, seguindo a lição de V. Khlébnikov, poeta russo, o único livro que existe, o livro-planeta, feito de água e terra.
Elenilson – Se listarmos o que fizeram no Brasil nos últimos anos no setor de cultura, percebe-se que o setor muitas vezes se relaciona com a vontade de fazer (ou não) dos poderes públicos, porque a relação cultura/educação é umbilical. Como a cultura pode, efetivamente, contribuir com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável de Brasil e também se beneficiar da agenda política dessa Câmara de DePUTAdos que mais parece só favorecer às cafetinas do verão?
Sérgio – Não tenho receitas políticas nem estéticas, mas, ao longo dos anos, tenho escrito muito sobre a minha relação com as culturas do Brasil, com destaque, em razão de minha formação e de minha origem, para as artes indígenas. Venho de um Estado onde a estética indígena é a grande referência. Tive a honra de conhecer anos atrás o sábio xavante Jerônimo Tsawé, grande narrador e grande calígrafo. Aprendi a fazer poesia visual com ele. A caligrafia de Tsawé me orienta e está sempre explicitamente presente na minha arte. Assim, parece-me que um poema ou um desenho de minha autoria, ou melhor, um poema desenhado por mim, quer manter viva essas alianças culturais múltiplas. Fui também estimulado por autores como Mário de Andrade e Guimarães Rosa, e por meio deles cheguei à conclusão de que o Brasil é um pergaminho todo escrito. Essa escrita o tempo todo nos manda recados, às vezes de modo oral. A nossa escrita canta, fala, sussurra... A visão de que nós brasileiros vivemos nesse pergaminho pode nos alertar para o fato de que vai ser impossível apagar as macas humanas e inumanas que Macunaíma tão bem soube ler no nosso país, ao correr pelo nosso vasto território, todo ele grafitado e eloquente. Esse pergaminho não foi aberto aqui por nenhum colonizador português, pois já estava aberto e todo escrito quando a primeiro europeu pôs os pés na nossa areia.
Elenilson – Seu livro “Porto do Pantanal” , a princípio, se apresentar com uma certa estranheza. Eu não saberia classificá-lo nem como poesia e nem somente como artes visuais. Mas detesto classificar livros por etiqueta: livro de preto, livro de branco, livro free, livro gay, livro visual. Então, como o próprio autor descreveria essa obra?
Sérgio – Essa obra desenvolve a estética do tumulto, que consiste em colocar lado a lado coisas que se tocam e criam atrito. No caso, a letra e a imagem, ou glifo (hieróglifo). Essas coisas díspares não criam uma terceira coisa homogênea, apaziguada. O tumulto é a meta. De repente, surge no poema (pois é um só poema sobre o jacaré que vem à luz, depois que as águas do mar originário voltaram para a Ásia e deixaram a terra pantaneira aparecer), de repente, dizia eu, surge no poema uma nova situação, em que o arcaico e o moderno se olham e se reconhecem, o feminino e o masculino se embaralham e se harmonizam momentaneamente, pois os nomes e os desenhos (glifos) não têm mais um gênero definido. O Pantanal, na minha cosmovisão poética, sempre está morrendo (sendo agredido), mas renasce, ressurge do deserto, graças às forças vitais que o poema resgata e põe em luta construtiva nas páginas do livro. Já disse acima que esse trabalho pode ser lido de muitas maneiras, por isso, se por um lado ele se apresenta como uma cosmogonia pantaneira, por outro é o catálogo de uma exposição... Precisei expor o jacaré para, a partir daí, recriar toda a sua história imemorial... Das artes plásticas à epopeia...
Elenilson – Venho notando que a presença de manifestações artísticas no ambiente virtual, reforçada pela grande influência das plataformas digitais (redes sociais, serviços de streaming etc.), distribuição e consumo de informação foi denominada como “plataformização da cultura” e tem sido objeto de debate e preocupação por parte de artistas, produtores e pesquisadores. Que reflexão o senhor faz sobre esse processo?
Sérgio – O meu jacaré pantaneiro precisa de todas as linguagens para recriar-se continuamente. É assim que ele passa a sua mensagem, a de que as lagoas não vão secar e de que os corixos (canais que ligam as lagoas entre si) continuarão fluindo... Mas ele não está preso a nenhuma plataforma digital, pois eu também crio o seu ambiente em vastas folhas de papel, as quais abro nas praças públicas, mostrando outras maneiras de criar e de apreender a arte híbrida que faço. Então, a minha prática tem me ensinado que o corpo físico, o corpo real, por mais enigmático que ele seja (às vezes é transparente, fica invisível, ninguém o vê), é uma plataforma cada vez mais importante para os poetas de hoje em dia que trabalham com a noção de livro expandido, ou de pergaminho total.
Elenilson – Amei o seu verso: “...mosquitos – nutridos de vinho – os embalam...” Lembrei tanto do Rilke, do Leminski (*conheço o filho dele), do Raul Seixas, Renato Russo e tantos outro que era chegados a uma bebedeiras de vem em sempre. O que lhe inspira na sua produção? Um vinho ou a presença dos mosquitos?
Sérgio – Os insetos me inspiram. E o vinho também, mas, como sou abstêmio, o vinho para mim é uma cor. A cor vinho do anoitecer e do amanhecer cria os mosquitos, no meu poema. De cada cor do livro, aliás, brotam insetos e também outros seres, humanos e inumanos. Por isso as páginas são bem coloridas... Adoro a palavra “marsúpio”, representada nos meus versos por “[...]” (ou “[,,,]”, num momento crucial), que é a bolsa onde a mãe marsupial carrega o filhote – aos meus ouvidos, nela ressoa a palavra mar, então imagino que essa bolsa é salgada... A imagem do filhote dentro dela é, como não poderia deixar de ser, azul... a cor original do mar dos Xaraiés. Esse termo, Xaraiés, no poema remete a um povo lendário que, quando o Pantanal era mar, circundava o mundo em suas canoas céleres, que correspondem aos satélites de hoje...
Elenilson – Construir o meu próprio patrimônio e olhar cultural, meu cabedal e a minha própria fruição (adoro essa palavra) a partir de um leque que adquirir nos livros, no teatro, na música e no cinema, por exemplo. Não na univerisidade. Mas quando eu ainda professor e levava turmas de alunos de colégios particulares e públicos, era constantemente criticado pelas coordenações que diziam que teatro não era local adequado para atividades extra classe, hoje a internet nos permite esse leque diversificado e muito mais. Comenta.
Sérgio – Acredito nisso, e a prova disso é que, como já comentei, fiz e ainda faço livros que só existem na versão on-line, para consulta gratuita. A internet me permite lançar essas publicações no ar, acompanhadas de vídeos, onde proponho desdobramentos que abrangem o rito e o teatro. A internet contém dentro dela todas as artes, sem que estas sejam diminuídas e fiquem necessariamente diluídas. Tudo depende do modo de usar a internet. Ela me torna mais interessado em ir à praça pública com os meus poemas em rolo (alguns têm 40 metros), já exibidos on-line, a fim de fazer lá, entre as crianças no parquinho, uma experiência nova com eles.
Elenilson – O senhor como fazedor de cultura, responda: democratização, demonização e democracia cultural se distinguem em quais aspectos?
Sérgio – Não consigo me orientar nessa pergunta. Não vou respondê-la, mas, já que a palavra democracia veio à baila, queria destacar um aspecto da minha arte que diz respeito à minha visão política. Já escrevi livros contra ditaduras e sistemas totalitários, um desses trabalhos, aliás, “A filha da figura”, está disponível no site glifoeletra.com.
Gostaria de mencionar, também, “As emas do general Stroessner”, que só saiu até agora em versão impressa – é uma peça de teatro sobre ditadores. Nesses trabalhos, geralmente imagino que os animais e as plantas veem os horrores da opressão e da guerra. Não por acaso, um dos meus estudos mais ambiciosos, já publicado em livro, se chama “A formiga-leão e outros animais na Guerra do Paraguai”. Democracia cultural, levando tudo isso em canta, talvez possa ser definida como uma ampliação de enfoque e linguagem, de modo que o humano não seja mais o centro da mensagem. Temos de fazer cultura ao lado da planta, da água..., para um público se possível também inumano, o que não exclui a participação dos humanos.
Elenilson – Estamos vivendo um grande debate sobre inteligência artificial e como ela pode ocupar o espaço da produção intelectual humana. Recentemente, ferramentas como o ChatGPT tornaram-se alvo de protestos. O senhor considera essas novas tecnologias uma ameaça?
Sérgio – Temos de aprender a criar com o corpo todo. Isso a IA não faz, porque não tem um corpo como o nosso. Quem faz arte na praça é o poeta, que expõe ao ar livre, para crianças e cachorros, a sua escrita, uma escrita que ele faz falar, contar, dançar de diferentes maneiras. Fiz uma longa reflexão sobre a IA, pensando nos seus aspectos positivos e negativos, num romance ainda inédito que de chama “Um Perna!”, sendo esse personagem, Um Perna, o Hu r Aqan, Furacão, o deus mesoamericano. Somos pernetas, e acreditamos que encontraremos a perna que nos fala na IA...
Elenilson – Ainda sobre o seu “Porto do Pantanal”, o senhor escreveu: “...antes de escurecer – pais e crias se concentram em meio a forte dispersão...” O que seria essa dispersão? BBB? Xvideos? Ou a própria ignorância?
Sérgio – É o tumulto, a impossibilidade de criar situações estáveis e homogêneos. É o cerne da minha linguagem. O contato sem contato entre corpos que são sempre diferentes, a cada tentativa de acasalamento. É o imprevisível, enquanto força criativa.
Elenilson – O que ainda lhe “decanta”?
Sérgio – Na minha arte atual, todas as letras podem virar glifos, imagens, e todas as imagens, letras. Eu chamo isso de minha tomografia cerebral, uma imagem da minha mente. Parece-me que ela se localiza ora nos primórdios, ora no futuro, mas de repente, porém, se apresenta no momento atual, de forma decantada. Esses glifos eu mesmo os elaborei anos atrás, e agora são tantos que já preenchem, a meu ver, um pequeno dicionário. Acredito que os glifos acabaram constituindo, para mim mesmo, o outro idioma do Brasil. Não falo só português, falo também outras linguagens, algumas inumanas, criadas por pássaros, por exemplo... Atualmente, passo os meus dias a “glifar”, a desenhar glifos. Rainer Maria Rilke, num dos seus sonetos a Orfeu, escreveu: “Gesang ist Dasein”, que eu traduzo como “Cantar é existir”. Eu diria que, no meu caso, também “glifar” é existir.
Elenilson – O projeto gráfico do “Porto do Pantanal” ficou simplesmente maravilhoso. As imagens (“de criaturas que escancaram os dentes”) não devem em nada aos livros importados. Coragem da editora em publicar e sua em organizar. Comenta.
Sérgio – A editora Iluminuras e eu tentamos fazer algo à altura do Pantanal, esse tesouro que quisemos homenagear. Deixa-me feliz saber que o livro, pelas suas palavras elogiosas, incorporou algo das lagoas e dos corixos deslumbrantes da minha terra natal.
Elenilson – Na Bahia, por exemplo, se fala muito em investimentos em cultura e educação, mas na prática não se faz nada. Nas escolas, professores não leem e poucos ou quase nada incentivam seus alunos ao ato de “acordar a mente” ou na “formação de platéia”. Na política, é isso que estamos vendo todos os dias. Não vejo com esperança o futuro que nunca chegou na terra do Jorge Amado. Como você visualiza esse projeto ribanceira historicamente herdado no Estado BR?
Sérgio – Pelas respostas anteriores, creio que apresentei uma concepção otimista da arte e da cultura brasileiras. Ainda sou otimista. Este pergaminho que é o Brasil será ainda reescrito muitas vezes, e depois lido e relido por várias gerações. Terá dois lados, como os poemas transparentes de Mira Schendel, uma estrangeira que foi grande brasileira.
Sérgio – Elenilson – E para terminar, o que anda lendo?
Na verdade, estou mais relendo do que lendo. Da Bíblia, “A epístola aos Gálatas”, por causa de um trabalho de juventude de Heidegger que estou tentando decifrar. Uso Heidegger no meu segundo romance, “Vão”, ainda “work in progress”, que toca na “parousia” para falar do elemento visionário na arte. Terminei uns textos do Jarry e acho que, como certos personagens dele, sou a favor do que é inumanamente possível. Recebi um livro de contos inéditos do grande romancista Ricardo Guilherme Dicke, que acabou de ser lançado. Já li alguns textos, os mais breves: são crônicas, poemas em prosa.
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