domingo, 26 de junho de 2022

LIVR.OS: UMA EXPOSIÇÃO DE GLIFOS VOCIFERANTES NA GALERIA GRUTA

No dia 3 de junho a galeria Gruta, localizada na Cachoeira do Bom Jesus (Florianópolis), abrigou a exposição Livr.os , que reuniu fragmentos de dois poemas-esculturas: O livr.o da minha ima...gem do mundo e O livr.o da lín...gua materna, essa massa nebulosa, ambos de Sérgio Medeiros. A exposição foi aberta apenas aos pássaros e aos insetos, e durou pouco mais de uma hora. Foi vigorosamente saudada por um gavião solitário, que sobrevoou as obras espalhadas no ar e no chão dando um grito impressionante. A Gruta é pequena e abriga permanentemente um ícone/ídolo de barro. Por falta de espaço, a exposição ocorreu diante dela, ao ar livre. Concluída a exposição, acenderam-se velas para o barro.


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2022

"O Espelho de Huarochiri" (2022) e "Veritotem" (2022)

O ESPELHO DE HUAROCHIRI

       O eclipse solar, tema deste poema verbo-visual que fala de destruição e recriação, envolve batalhas religiosas e estéticas que são travadas em séculos distintos.

      No século XVII, Don Cristóbal, um sacerdote andino convertido ao cristianismo, se sente perseguido por um círculo branco, o Sol da meia-noite, que não se rendeu ao poder da cruz, a qual está inscrita na própria página branca do poema.

       Muito depois, no século XX, o Sol do meio-dia é recoberto na Rússia pela cruz do quadrado negro, cujas lados irregulares sofrem convulsões e dão origem ao quadrado branco e ao círculo invisível da arte e da religião desmaterializadas, como testemunha o manifesto de 1923, “O espelho suprematista”, de Kazimir Malévitch.

       No poema, os dois momentos históricos são “contemporâneos” graças à ação de um simples clipe (versão irônica do prego sagrado), que é capaz de uni-los na folha em branco, na qual convivem círculos e quadrados andinos e russos.   


quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

A Visual Finnegans Wake on the Island of Breasil

Ambientada na lendária Hy Brazil (ou Island of Breasil) dos mapas medievais, esta versão poética do último romance (ou poema-romance) de Joyce percorre sonhadoramente uma a uma as páginas de Finnegans Wake, escrito num inglês delirante que se espraia por múltiplas línguas (o idioma de Joyce é o verdadeiro marinheiro dessa obra sobre viagens). Medeiros, que é poeta e artista visual, busca extrair das páginas oníricas de Joyce os códices hieroglíficos que remontam às origens da escrita: o alfabeto das árvores do irlandês antigo, os petróglifos milenares de diferentes culturas, as figuras arquetípicas dos manuscritos mais secretos... Porém, esses coloridos glifos que Medeiros descobre e/ou reinventa anunciam também as novas escritas que ainda vão emergir da massa nebulosa (expressão de Wittgenstein) que é a “língua materna” mundial.   


Set in the legendary Hy Brazil (or Island of Breasil) of medieval maps, this poetic version of Joyce's latest novel (or novel-poem) dreamily scrolls through the pages of Finnegans Wake, written in a frantic English that spreads across multiple languages. (Joyce's language is the true sailor of this work on travel). Medeiros, who is a poet and visual artist, seeks to extract from Joyce's dreamlike pages the hieroglyphic codices that go back to the origins of writing: the ancient Irish tree alphabet, the ancient petroglyphs of different cultures, the archetypal figures of the most secret manuscripts. However, these colorful glyphs that Medeiros discovers and/or reinvents also announce the new writings that are yet to emerge from the nebulous mass (Wittgenstein's expression) that is the world's “mother tongue”.

LEIA GRATUITAMENTE AQUI

domingo, 29 de agosto de 2021

Um Macunaíma visual (2021)

       

Ao colocar lado a lado a floresta e a metrópole (as árvores exuberantes que dão todos os frutos e os prédios altíssimos que não abrigam todas as pessoas), esta obra verbo-visual do poeta Sérgio Medeiros se propõe a repensar o Brasil de ontem e de hoje a partir dos mitos ameríndios e do romance de Mário de Andrade, que alçou Macunaíma, o Imperador do Mato Virgem, à condição de (anti-)herói nacional. 

       Contudo, Macunaíma, ao mesmo tempo adulto e criança, não é apenas do Brasil: ele é da Guiana e da Venezuela também. Na condição de (anti-)herói sem pátria, Macunaíma é, portanto, um símbolo latino-americano, além de apresentar-se nesta obra como um protagonista absolutamente inclassificável: é arcaico, moderno, contemporâneo... 

       No prefácio, Medeiros afirma que deseja mostrar essas facetas de Macunaíma e ao mesmo tempo homenagear o espírito macunaímico da Semana de Arte Moderna de 1922, da qual Mário de Andrade foi um dos organizadores.